O que você vai fazer?

Nossa inteligência deveria se voltar para a questão de como podemos todos sobreviver e ser felizes sobre este planeta, um planeta lindo, maravilhoso, cheio de recursos que nos fariam viver em absoluta felicidade, se não tivéssemos inventado tantas coisas inúteis para possuir. Aliás, se não tivéssemos inventado o “possuir” em si, e com ele o poder, a política, o dinheiro.

Nossos esforços deveriam se concentrar em como viver sobre o planeta terra, todos em paz, independente de país, etnia. O “sistema” que nós construímos é que está destruindo o planeta. Não se trata de uma “causa natural”. O que está destruindo o planeta são as instituições, a própria noção de “país”, as guerras, tudo o que foi criado pela mente do homem. Temos que usar essa mente para reverter esse processo ou seremos todos destruídos, mais cedo ou mais tarde. Essa estrutura que nós criamos não pode estar correta. Se ela estivesse correta ela seria um abrilhantamento do planeta terra, e não o seu soterramento. Ela seria um abrilhantamento do que é a relação humana, já que somos o único animal dotado de uma consciência capaz de pensar sobre si mesma, avaliar e reavaliar os próprios atos. A gente tinha que ter aprendido alguma coisa que não nos levasse a esse caos em que nos encontramos. Mas nós aprendemos a dominar, através de estratégias de alienação, para obter controle, poder, uns sobre os outros.

Olhando os casos de corrupção no Brasil, você se assusta ao observar o volume de dinheiro acumulado por determinadas pessoas e famílias. Pra que tanto dinheiro? Esse dinheiro não compra felicidade, aliás, não compra nem saúde, porque, se ela faltar, pode não haver tratamento que ajude, por mais caro que seja. E a obsessão pelo poder adoece, adoece irremediavelmente, como a pior das moléstias.

Como é possível pensar a felicidade dentro de um palácio, se ao redor todo o resto for miséria, doença e destruição? Como ser feliz cercado por plantas, animais e seres humanos em condição de sofrimento? Não é possível essa felicidade, só se a pessoa viver drogada, anestesiada cem por cento do tempo. Na fantasia das drogas ela pode viver sempre no mundo que quiser. E o poder é a mais potente das drogas.

Por que nós construímos isso? Essa reflexão é muito importante. Esse momento de parada e reflexão sobre tudo o que está acontecendo aqui agora é muito importante. Lamentavelmente, eu temo que este momento não esteja acontecendo para classes muito importantes do nosso país. O governo continua preocupado com dinheiro e poder. O governo não está entendendo esse novo paradigma, o paradigma da paz, de mais igualdade, de menos necessidades materiais, de como ter comida saudável para todos. Por que tudo é dinheiro, tudo é poder…

Onde é que a raça humana se perdeu dessa forma, onde deixamos de ser irmãos para sermos algozes, carrascos, uns dos outros? Como conseguimos olhar para o lado, para pessoas necessitadas, sem ter o mínimo de compaixão, sem perceber nossa responsabilidade? E pior: sem perceber que a desgraça delas é a nossa? É importante que a gente pare nesse momento e se pergunte quais são nossas reais necessidades. Nós precisamos de mais de uma casa para morar? Mais de um carro para locomoção? Achamos correto que a invenção da mente humana sobre o que é “bom”, “ruim”, “digno” ou “exemplo de sucesso” esteja destruindo e matando milhares de pessoas com a mesma oportunidade de vida na terra?

A terra não é nossa, a terra é um direito de todas as almas que encarnam aqui. Igual. Quem nasceu na favela não tem menos direito sobre a terra do que quem nasceu numa mansão. Nós não temos esse “direito” de propriedade, ele foi uma invenção, não é natural, ele não nasceu com o planeta, ninguém recebeu uma chave, um título para ter preferência em ocupar a terra, nós nascemos em igualdade para ocupar a superfície do planeta e lamentavelmente fizemos o que fizemos. Que Deus nos ajude.

Eu desejo que possamos refletir sobre a nossa própria destruição e que haja tempo de tomarmos uma atitude. Ela há de ser drástica, pois implica em uma reversão total do motor e mudança de direção. Da minha parte, já abri a casa aos amigos que porventura não estejam empregados e não consigam pagar as contas e estou plantando a comida e partilhando com quem me ajuda, para escaparmos dos altos preços e dos agrotóxicos. Eu te convido a pensar o que você pode fazer para salvar, não aos outros, mas a si mesmo.

Eleições (a vitória de raviole)

Almoço normal em dia de trabalho, entro no velho Debret de guerra, tentando focar nas proteínas e sufocar o vício dos carboidratos. Depois das 14h, o movimento já diminuiu e geralmente vislumbro, ainda na fila de pesagem, as mesas do fundo, à procura de um lugar vazio.Minha amiga concentrara-se em algumas folhas, coalhada, um pouco de pão árabe e um solitário quibe, agora com os minutos contados. Eu preferira a kafta, uma colher de tabule, duas micro cenouras e uma quase invisível lasca de beterraba, entre algumas folhas verdes. Carboidrato do dia: uma colher de arroz com legumes, que deram uma cor amarelo esmaecida ao grão em geral pálido. 285 e 295 gramas. Pronto. Praticamente empatadas no emprate. Foi na hora de passar no corredor para alcançar as mesas do fundo que o incidente aconteceu. A frase foi clara, a ponto de, pela primeira vez, eu ter desejado muito ser surda naquele momento: “Aí liguei pra velhinha, cara, a de 47 anos, mas até que ela é ajeitada…” Senti um calor subindo pela espinha e chegando às bochechas. Será por que sou pitta na medicina indiana? Será a menopausa? Ou se trata, simplesmente, de EBMV (emputecimento com babaquice de macho velho)? Sim, porque os “gostosões” tinham mais de cinquenta e estavam caindo aos pedaços pra se acharem no direito de menosprezar e chamar de velhinha uma mulher praticamente… da minha idade!! Mesmo já sendo chamada de tia e senhora por aí, mesmo com a perda do saudoso “moça” habitual, nunca tinha sofrido impacto daquela monta e me vi repentinamente desnorteada, desorientada no meio do restaurante. Devo, então, ter virado para o lado errado, pois, de súbito, me vi de frente ao buffet de massas, o reinado sem lei do carboidrato. Novo impacto. Senti o mundo girar. Velha, perdida, fitava o reino mágico de raviólis, lasanhas e canelones, num fantástico espetáculo de cheiros e cores, que tornavam absurdo ter que escolher apenas um. Sim, porque a partir de um certo ponto da vida, todo mundo tem que se preocupar em eleger apenas um carboidrato e de preferência, apenas no almoço. Se você pensa que é difícil eleger esporadicamente o governo de um país, não menospreze a dificuldade da eleição do carboidrato. Se a primeira é difícil, porque todas as opções são ruins, com a segunda ocorre justamente o oposto, pelo menos para uma italiana massuda como eu, é difícil escolher entre um raviole de peras ao molho gorgonzola e um torteloni verde, com nozes e molho pesto. Mamma mia! Sem contar que só dá pra botar uma unidade do eleito no prato, no máximo duas, se forem bem pequenas… A eleição do carboidrato é diária e você engole com prazer divino e meio desatinado o candidato que mais lhe apeteceu escolher. E que experiência o momento em que ele te governa totalmente! Você deseja que nunca acabe… As outras eleições, em contrapartida, te fazem engolir à força no mínimo quatro anos do menos pior figurante do cardápio, em geral amargo, azedo e como vemos por aí, muitas vezes com a validade vencida. O menu, longe da variedade do buffet de massas, há tempos não varia, sempre ladrões e canalhas que só trocam o molho e os adereços. Enfim, eu estava arrependida de ter elegido o arroz cor de burro quando foge, diante daquele carrossel encantado de opções. Velhinha, desprezada até por barrigudos de cinquenta com cara de figo seco, nada me consolaria mais naquele momento do que um bom e familiar raviole.Va bene! Se ainda fossem magros e elegantes os dois idiotas… Fico sempre muito impressionada com gente light, mais evoluída. Sinto uma inofensiva inveja daquele povo esguio e esvoaçante pra quem comer é só um mal necessário, um acidente de percurso, que torna fácil trocar um bom prato de lasanha por duas azeitonas, se descobrirem que ambos têm o mesmo valor nutritivo. Comer – algo ou alguém – tem para mim um significado sublime e essencial. É uma espécie de êxtase, uma experiência de Deus, que deve ser pensada e preparada com cuidado, com a solenidade que o momento exige. De posse de duas unidades dos ravioles mais lindos do buffet, separados num pratinho, voltei à fila de pesagem. Minha amiga, que não entendera nada, olhava pra mim, aguardando-me para finalmente começar a comer. Passei rápido pelo corredor, sim, a velhinha. Afinal, quando a revolta com a guerra dos sexos acaba num prato de raviole, há que se reconhecer o sucesso do inimigo. Eles haviam vencido. Eu era velhinha sim, velhinha e gordinha. Mas também era ajeitada! E ia ter que eleger um monte de porcaria em outubro e engoli-la a seco por anos amargos e sem fim, mas pelo menos elegera o raviole e enquanto ele se dissolvesse na minha boca, ah, eu seria feliz! Votaria, sem pestanejar em raviole para governador do meu Estado. Mas a política não é tão linda quanto as massas, ainda que tudo sempre acabe em pizza!

(Image by Bernadette Wurzinger from Pixabay)

A Terrorista (bad day for travel)

Destino: Aeroporto Santos Dumont. Cinco horas da tarde. Já não era a hora ideal para se sair de casa e atravessar o centro da cidade do Rio de Janeiro, como eu precisava fazer pra viajar. Mas tudo bem. Há dias e dias. Dias em que tudo dá certo e dias em que você percebe que deveria ter ficado na cama. Eu devia ter notado. Devia ter lido os sinais. Devia ter desconfiado que esse era um dos dias em que eu faria melhor chafurdando em macios lençóis floridos, de preferência sem me mexer muito. Mas nunca consegui prever esses momentos em que a lei de murphy vai começar a agir na minha vida… Pra começar, mala pronta, roupa de viagem separada (aquele vestido preto, curto mas elegante), a empregada dispara, a voz aguda e contundente: Xiiih! A meia desfiou!!! Como assim a meia desfiou?!! Será que ela sabia o que estava dizendo? Será que se lembrava de que pedi para comprar uma meia novinha essa manhã? Como é que a meia desfiou??? Será que a criatura tinha amor à vida? Saí cedo, deixei dinheiro, pedi que ela fosse às Lojas Americanas ali perto e me trouxesse uma meia preta. Quando chego em casa, duas da tarde, passo a mão na roupa, me visto e ela vem com “a meia desfiou?” Como assim? Essa é a meia nova? Não. Cadê a nova? Não tinha.Tava em falta. Por que você não me avisou? Eu estava no centro da cidade, podia comprar lá, tem um monte de lojas…-Ah, você tava em aula, depois no trabalho, não quis incomodar…Não quis incomodar? Como assim não quis incomodar? Me incomoda pra tudo e logo hoje não quis me incomodar? Enfim, estava sem meia e aquela saia, somada à minha idade, não pedia, EXIGIA uma meia! Minha assistente se afastou, prevendo a chegada dos meus temporais. Tirei o vestido. Foi o primeiro sinal. Calça jeans, blusa comum, perdido o tesão das roupas provocantes, lá vou eu para o aeroporto. Chego ao ponto de táxi com alguma pressa: Táxi? O motorista acenou positivamente e naquele exato instante eu devia ter me perguntado, por que motivo ele estava empurrando o carro na fila do ponto quando eu cheguei. Na pressa, não perguntei, mas acabei descobrindo. Depois que o carro pegava, ele não podia morrer. Se morresse, morria mesmo, de fato e de direito. Assim, o motorista, com jeito de Jackie Chan, entrava aqui, furava dali, fechava um ônibus acolá, tipo “não boto o pé no freio nem que a vaca tussa”. Alguém já assistiu “Velocidade Máxima”, aquele filme com a Sandra Bullock e o Keanu Reeves, em que eles não podiam frear o ônibus nem reduzir a velocidade, senão a bomba explodia? Pois é. Imaginem Velocidade Máxima sem ar condicionado e terão uma idéia do meu trajeto até o aeroporto. Por alguns momentos, achei que não ia chegar, mas cheguei. Só tive tempo de ver Jackie pegando outro passageiro incauto e começando a empurrar o carro mais uma vez. Entro no saguão do Santos Dumont aliviada. A temperatura deliciosa me atinge em cheio. Tenho tempo para um café antes da decolagem. Por desencargo de consciência, dou uma olhada no painel eletrônico de embarques: VÔO 6796 – CANCELADO. Surtei. Sempre voei de TAM. Era a primeira vez que usava outra companhia. Taí. Olha o prejuízo! Café esquecido, quarenta minutos de tensão no balcão da empresa, à espera do meu destino. Porém, essa que pensei seria a pior parte, acabou sendo a melhor. Logo me encaixaram num voo da TAM, que sairia mais cedo do que o meu. Desisti de despachar a bagagem, pois já estava em cima da hora e o tamanho da minha mala, embora não fosse insignificante, ainda era tolerável no compartimento de babagem do avião. Tudo daria certo, enfim. Cartão de embarque na mão, cruzo o saguão correndo, na direção da escada rolante. Entro no setor de embarque, vejo o Arlindo Cruz e, tendo esbarrado no samba, acreditei, naquele momento, que a sorte voltava a me sorrir. Foi quando passei no detector de metais. Apito 1. Apito 2. Apito 3. Revista. Lá estou eu, no meio do salão de embarque, braço aberto, perna aberta, brincando de Cristo Redentor, enquanto alguém insistentemente me chama para o voo que só não partiu ainda por minha causa. Revista de lá, revista de cá, o problema era o metal no salto da minha sandália. Sandália de ir pro samba e samba não combina com guarda, nem com detector de metais. Samba é da paz. Onde estaria mesmo o Arlindo Cruz? Revista terminada. Tudo ok. Foi quando o José, tipo 5 x 5 armário, encontrou “um objeto suspeito com dentes” na minha mala. A senhora pode abrir?Eu abri, né? Acha cadeado, abre cadeado, roupa pra lá, roupa pra cá e nada do tal objeto suspeito. Eu dizia pro José: Mexe aí, José! Anda logo! E ele, impassível, aquela cara de pedra, sem emoção: Senhora, é um objeto dentado…Ele não tocava na minha mala, eu não encontrava o objeto e a esteira continuava rolando e jogando outras malas em cima de mim… Gritei: Pára essa esteira aí, José! Assim não dá! De repente, lembrei do cinto na bolsa externa da mala. “Dentado” uma ova!!!, pensei. Banguelo. Era ele. Tudo resolvido. Saio literalmente correndo pelo salão, me jogo dentro do avião, não sem antes passar pelo corredor batendo a mala em todo mundo, um sorriso amarelo de cachorro culpado. Me acomodo no único lugar possível, entre um executivo e a versão masculina da bela adormecida, que roncava sem cerimônia. Me sinto exausta, tensa, espremida e nem ouso pensar que o meu azar acabou. Recuso o serviço de bordo, rejeito a ideia de um cochilo, certa de que não posso relaxar até que este dia se acabe. Rezo para que esse avião pelo menos não exploda. Isso seria o pior. Já vejo até a cara do José, no scanner de bagagem: Bem que eu desconfiei que aquela dona era terrorista!

Carta ao grande amor

Dia de sentir, hoje deixo um trecho do romance (não publicado) “Bruxa”:

Meu amor, como sinto sua falta, embora sequer saiba falta de que eu sinta, pois você nunca esteve presente, nem em carne e osso, nem em telefonemas, sequer em cartas. No entanto, não consigo me livrar da tua presença, o tempo todo comigo e tão forte, que me impede todos os passos que me afastem dos teus braços, como se deles eu já não me tivesse separado há quase um ano. Como sinto a sua falta de sempre, a falta de “todos os dias da sua presença” e, ainda assim, te sinto aqui, sinto teu hálito quente ao meu lado na cama, teus braços fortes ao meu redor, teu corpo grandioso, de pé, perto de mim. Não há um segundo sequer em que eu não te perceba, nem nos meus sonhos, nem na noite escura. Beijo o edredon de flores que te cobriu algumas noites, deito no lado da cama em que você dormiu. Tudo o que há de humano para ser feito eu fiz, voei no astral para te abandonar, mergulhei nas minhas profundezas pra te arrancar de mim. Renasceste mais forte e quase me convenço de que te devo muito, te devo minha própria vida por outra encarnação mal resolvida em que te magoei ou te matei de amor, acumulando esse carma que me persegue nesta jornada. Meu amor, tento te deixar todos os dias, tento dizer a última palavra sobre nós e te dar meu último pensamento, mas ainda respiro e desconfio que enquanto isso ainda for, não sairás de mim. Debaixo d’água, no meu chuveiro, fecho os olhos e te lembro ali, espremido naquele espaço tão pequeno pra você e novamente te sinto: teus pelos, teu calor, tua saliva e a minha, teu gozo e o meu, tudo misturado num redemoinho de emoções tão intensas, que me encontro, ao final, sentada no box, como uma boneca de trapo, as lágrimas misturando-se à água quente do chuveiro. Sempre fui descrente desse desespero em que hoje vivo, dessa dor aguda, cortante, que me traz aos olhos as lágrimas de que sempre fugi. Sinto a tua falta, como se tudo o que eu sou hoje fosse apenas esse órgão, esse único órgão de sentir falta de ti. Sinto sua falta sempre que encontro outros homens, tentei beijar outras bocas, mas eram – sempre! – a tua, e, no fim das contas, me faz mal frustrar tanto a expectativa do teu gosto. “Gosto nenhum” é melhor que outro gosto sem ser o teu. Mas demorei a saber disso e só soube porque tenho minhas necessidades de mulher, você sabe que sou fogosa, então tento – preciso tentar! – renascer dessas cinzas escuras que me tornei, desse tempo nublado, dessa sombra que hoje carrega o meu nome, pois sou apenas a sombra da que fui quando “fui” contigo. Minha abstinência desse vício poderoso de ti tem várias fases e, em algumas, meu tempo e espaço se confundem, tenho visões, sinto cheiros, duvido que me tenhas amado realmente, não sei o que fui, sinto-me a última das criaturas, apenas uma diversão que usaste por algum tempo e que é tão fácil de ser descartada que nem um telefonema te trai alguma saudade. Nessas horas, sofro tanto, pensando que eu não signifiquei nada para ti, que parece que me arrancaram o fígado, as entranhas, as tripas e puseram para dourar numa farofa nada light de mim. Vazia de meus miúdos, sobrou apenas uma carcaça gelada, fria, que anda, respira e trabalha, simplesmente porque é assim que a vida é. Logo eu que sempre protestei contra o teu conformismo… Minha filha ficou muito doente em maio passado, pensei que fosse perdê-la, por um segundo toquei a dor que você sentiu quando perdeu seu filho e então voltei a orar por você, a te fazer carinhos na noite e a pedir a Deus que te abrace, se é que Ele pode te amar mais do que eu, o que eu realmente duvido. Com a doença da minha filha fui ao fundo do poço, submergi na angústia e na dor, arranquei a parte que faltava de mim e descobri que você tinha razão quando disse que somos parecidos. Eu não concordava muito até então, mas é um fato. Sou forte, forte como você. Quando penso que vou cair, que afundei e não volto mais à superfície, subitamente – sem saber como, sem ter a menor idéia do que me move nessas horas – me levanto, me ergo e respiro com a sofreguidão de um quase afogado. Durante todo o tempo da doença da minha filha, fiz tudo o que era preciso. Firme, determinada, imperturbável. Vencemos. Voltei. Sobrevivi e agora vou morrer da tua ausência, o que de alguma forma me conforta. É bom se saber morrível e, neste caso, matável. Não quero ser um zumbi ou uma vampira eternamente condenada à vida. Uma vida sem você. Nas noites mais dolorosas, me pego pensando no último e-mail que te enviei, um ridículo substrato da minha dor, disfarçado de amizade, de carinho, quando, por baixo daquelas palavras singelas e estudadas, eu gritava o meu sofrimento, rezando para que elas encontrassem em ti, surpreendentemente, uma sensibilidade que jamais toquei. Não porque você não a tenha – eu consigo vê-la por sob a sua fortaleza, assim como só você é capaz de ver a minha fragilidade -, mas sim porque a teme e enterrou-a tão bem em algum lugar que esqueceu aonde foi. Não quer contato com ela e mata tudo o que pode te fazer desenterrá-la, porque junto dela estão as dores mais intensas da sua história e não se pode escolher sentir esta ou aquela emoção: ou se sente tudo, ou não se sente nada. Você fez a última opção. Agora te trago, então, a boa nova: morre-se. Sentindo ou não sentindo, todos nós vamos morrer. Não nego a minha natureza – a poesia -: morro sentindo. Morro sofrendo, morro chorando, morro gritando de saudades, morro por saber quão raro foi esse encontro que desprezaste e quão chula é a ordinária vida comum, a manutenção do patrimônio, a vida dos deveres sem direitos claros. Morro, mas morro tendo aberto os braços para o amor, tendo-o recebido e dito “sim”. Nenhum bem material, nenhum valor financeiro, nada, absolutamente nada, me seria suficiente nesta vida e agora nesta morte, que não um amor como esse: absoluto, divino e… fatal… Mas não se assuste, morre a alma, todavia o corpo continua, cumprindo o tempo a ele destinado, desabitado como depois da tua partida. Minh’alma sofrida só agora parte, tendo vagado, antes, pelas tuas noites no litoral, tendo presenciado a dança regalada das futilidades em que te enredas todos os dias, para esquecer do que realmente importa. Eu te amo e sei quem és. Ao menos nisso hei de surpreender-te. O tempo todo pensavas que eu não te conhecia, que se te conhecesse, de fato, jamais te amaria. No entanto, agora sou eu quem te digo, como me disseste no aeroporto: “Eu menti pra você.” Sempre soube quem você era. Sempre soube que toda a doçura, a compreensão e aceitação, eram a capa de um homem possessivo, obsessivo, quase rude e de poucas sutilezas, bravo, genioso, temperamental, indomável, às vezes intragável. Eu sempre soube. E eu te amo. Se me tivesses recebido, se me tivesses aceitado, verias como o verdadeiro amor desarma e traz paz, como ser amado aquieta as turbulências e faz transbordar de mel o pote da violência… Eu te amo. Não se esqueça. Neste mundo não me parece que apareça quem dê conta de mim. Se não foste tu, meu centurião gorilla, quem haveria de ser? Sou mulher poderosa de outras eras, feiticeira. Por tua causa abri mão de todas as magias, deixando apenas ao teu coração a decisão de me amar. Rejeitaste a minha oferta legitimamente. Nenhuma influência lancei sobre ti. E porque te amo, abro mão de tê-lo. Sejas tu a eleger a tua felicidade. Hoje, minh’alma se retira para sempre de ti. E morre em paz. Selada foi a promessa, cumprido o destino, queimado o carma. Adeus, meu amor…

Paz em tempos difíceis

Queria compartilhar a alegria de ter reencontrado esse livro, que, por volta de 2001, foi muito importante pra mim. Ele tem prefácio de Sua Santidade o Dalai Lama, com algumas reflexões muito boas para o nosso momento aqui na terra. Ele enfatiza a Paz Interior como o bem maior do ser humano. Me lembro que, na época, eu estava vivendo um momento existencial muito difícil. Ao longo daqueles meses, alcancei uma súbita compreensão de que o que eu sempre buscara realmente fora Paz Interior. Ao longo da jornada, eu dera muitos nomes para ela: o amor de um homem, um título acadêmico, um cargo, uma viagem, um curso, questões da minha filha e dos meus pais… Enfim, entendi, naqueles dias de completa escuridão, que eu sempre buscara Paz, só isso, e que, a despeito da noção de que ela dependia de fatores externos, isso não era verdade: ela dependia de mim. Acreditem, só de mim. No prefácio do livro de Tara, o Dalai Lama afirma a Paz Interior como valor maior e esclarece que ela é perturbada pelas emoções descontroladas, ou seja, pensamentos e emoções negativos (ódio, raiva, orgulho, luxúria, inveja, ganância…). Afirma que estes são, igualmente, a base de todas as condutas não éticas, assim como a base da ansiedade, depressão, confusão e estresse. Comecei a verificar isso no meu dia-a-dia e fiquei surpresa com a simplicidade e a realidade desse ensinamento. Nossos pensamentos e emoções negativos e, portanto, antiéticos – já que desconsideram, por si só, a empatia (se colocar no lugar do outro e não fazer a ele o que não gosto que me façam)-, afetam nosso padrão vibratório, causando a perda de nosso equilíbrio e paz interna, donde surgem ansiedade e estresse. O mais interessante foi a ligação feita por Sua Santidade entre a perda de Paz Interior e as doenças físicas, já que hoje já é reconhecido que as doenças são resultado de estados emocionais de desequilíbrio, que, após se manifestarem em nossos corpos energéticos, não visíveis a olho nu, atingem a nossa dimensão física. Enfim, sou grata por ter reencontrado este livro e recordado sua riqueza de ensinamentos. Em dias nebulosos como os que a terra atravessa, nenhum recurso é demais para nos auxiliar a manter, dentro de nós, a Paz Interior…

O primeiro passo é parar

Ouço o cara na TV falando da tragédia na escola em Suzano. Ele diz que os jovens atiradores provavelmente tinham problemas familiares, que os levaram ao ódio e à violência. Me pergunto: alguém não tem problemas “familiares” numa sociedade com um modelo familiar tão doente? Quantas famílias conhecemos com casais perfeitos e filhinhos “comercial de margarina”? Basta ir a um restaurante no domingo e a maioria dos casais age mecanicamente, muitos nem se olham na cara, não conversam, são dois solitários juntos. As pessoas têm amantes, vivem de aparências. Muitos se matam de trabalhar para conquistar coisas inúteis como o último modelo de iphone, vivem um cotidiano de competitividade desleal em suas empresas, não têm tempo para conversar com os filhos, não têm tempo para ser quem são. Me lembro, quando eu era muito nova e minha mãe ainda estava encantada com o “american way of life”, tudo dizia respeito ao que os outros iam achar: sua roupa, seu corpo, seu cabelo, sua profissão, seu emprego, sua recepção, seu carro… Nós engolimos esse modelo e colocamos o avestruz como modelo, numa sociedade de rinocerontes. Resultado: todo mundo infeliz. Infeliz com o corpo, que não obedece padrões impossíveis aos humanos. Basta ver a loucura dos atores e atrizes, que, mal começam a fazer sucesso, usam tantos procedimentos de “correção”, que, anos depois, estão praticamente irreconhecíveis. E isso falando de meninas e meninos com vinte e poucos anos. Será que não vemos o que há de errado nisso? Não são os procedimentos em si, mas o fato de que não estamos felizes sendo como somos, vivemos insatisfeitos e, por conta disso, giramos uma imensa indústria “da beleza”. Beleza no conceito que nos foi imposto e sobre o qual, muitos, jamais refletiram. Vivemos infelizes com o trabalho, porque não nos ouvimos, não sentimos o que realmente queremos fazer, mas procuramos a profissão da moda e do sucesso, onde se ganhe mais dinheiro e status, não importando os meios. Vivemos uma vida mecânica, frequentando eventos que às vezes não nos dizem nada, mas servem para mostrar aos outros (sempre isso) que somos “badalados”, modernos e bem-sucedidos em nossas relações sociais. Perdemos as viagens fazendo selfies e, cada vez mais nos dopamos com álcool, drogas, consumismo exagerado, redes sociais, jogos. Tudo que tire o foco de nós mesmos. Não percebemos que nunca vamos atingir o padrão ideal criado por esse “sistema” e este é o truque para nos mantermos cada vez mais nas mãos dele: nos endividando para comprar coisas inúteis, fazer cirurgias plásticas, mostrar que atendemos ao padrão que nunca será atingido. E porque, bem lá dentro, sabemos disso, vivemos infelizes. Esse sistema nunca vai gerar seres humanos equilibrados e não há solução rápida para isso. O primeiro passo, curiosamente, talvez, fosse parar de dar qualquer passo e olhar pra dentro. Individual e coletivamente. Porque do jeito que a coisa vai, um dia a terra será – se é que já não é – um grande presídio no universo…

Ansiedade e celular

Há tempos venho tentando desacelerar, mas é difícil. Houve um tempo em que a prática do Dakshina Tantra Yoga (louvores ao Kailasa, no Rio) me ajudava muito, assim como a meditação e o Vedanta. Contudo, como até esses temas são atualmente assunto da internet, em suas diversas apresentações, você, de repente, percebe que entrou num modus operandi completamente dependente de celular, que é o canal mais próximo por onde acessamos todos esses vários conteúdos. Me peguei tomando banho com celular do lado, comendo e postando em facebook, dirigindo e ansiosa pra ver se alguém tinha curtido meu último post… Conforme assimilava mais e mais informação, fui ficando meio louca, querendo abarcar todo aquele conteúdo na cabeça, comprando cursos interessantes, sem conseguir acompanhar, ficando irritada com redes lentas, com pessoas que me interrompiam, com a vida acontecendo lá fora… Parei. Busquei ajuda e, aos poucos, fui retomando a meditação, voltando ao contato humano, sumindo com o celular nas horas em que ele não é necessário. Já sinto alguma saúde voltando, traduzida em mais sorrisos do que gritos, em banhos de sol e de chuva no jardim, em noites melhor dormidas e mais disposição. Consegui entender que embora seja o homem o criador de todas essas ferramentas, isso não significa que consiga lidar plenamente com elas, sem prejuízo de coisas tão caras à raça humana, como a serenidade, a paciência e a tolerância…