O primeiro passo é parar

Ouço o cara na TV falando da tragédia na escola em Suzano. Ele diz que os jovens atiradores provavelmente tinham problemas familiares, que os levaram ao ódio e à violência. Me pergunto: alguém não tem problemas “familiares” numa sociedade com um modelo familiar tão doente? Quantas famílias conhecemos com casais perfeitos e filhinhos “comercial de margarina”? Basta ir a um restaurante no domingo e a maioria dos casais age mecanicamente, muitos nem se olham na cara, não conversam, são dois solitários juntos. As pessoas têm amantes, vivem de aparências. Muitos se matam de trabalhar para conquistar coisas inúteis como o último modelo de iphone, vivem um cotidiano de competitividade desleal em suas empresas, não têm tempo para conversar com os filhos, não têm tempo para ser quem são. Me lembro, quando eu era muito nova e minha mãe ainda estava encantada com o “american way of life”, tudo dizia respeito ao que os outros iam achar: sua roupa, seu corpo, seu cabelo, sua profissão, seu emprego, sua recepção, seu carro… Nós engolimos esse modelo e colocamos o avestruz como modelo, numa sociedade de rinocerontes. Resultado: todo mundo infeliz. Infeliz com o corpo, que não obedece padrões impossíveis aos humanos. Basta ver a loucura dos atores e atrizes, que, mal começam a fazer sucesso, usam tantos procedimentos de “correção”, que, anos depois, estão praticamente irreconhecíveis. E isso falando de meninas e meninos com vinte e poucos anos. Será que não vemos o que há de errado nisso? Não são os procedimentos em si, mas o fato de que não estamos felizes sendo como somos, vivemos insatisfeitos e, por conta disso, giramos uma imensa indústria “da beleza”. Beleza no conceito que nos foi imposto e sobre o qual, muitos, jamais refletiram. Vivemos infelizes com o trabalho, porque não nos ouvimos, não sentimos o que realmente queremos fazer, mas procuramos a profissão da moda e do sucesso, onde se ganhe mais dinheiro e status, não importando os meios. Vivemos uma vida mecânica, frequentando eventos que às vezes não nos dizem nada, mas servem para mostrar aos outros (sempre isso) que somos “badalados”, modernos e bem-sucedidos em nossas relações sociais. Perdemos as viagens fazendo selfies e, cada vez mais nos dopamos com álcool, drogas, consumismo exagerado, redes sociais, jogos. Tudo que tire o foco de nós mesmos. Não percebemos que nunca vamos atingir o padrão ideal criado por esse “sistema” e este é o truque para nos mantermos cada vez mais nas mãos dele: nos endividando para comprar coisas inúteis, fazer cirurgias plásticas, mostrar que atendemos ao padrão que nunca será atingido. E porque, bem lá dentro, sabemos disso, vivemos infelizes. Esse sistema nunca vai gerar seres humanos equilibrados e não há solução rápida para isso. O primeiro passo, curiosamente, talvez, fosse parar de dar qualquer passo e olhar pra dentro. Individual e coletivamente. Porque do jeito que a coisa vai, um dia a terra será – se é que já não é – um grande presídio no universo…

Um comentário em “O primeiro passo é parar

  1. Um texto feito com uma observação minuciosa,que visa expressar a nossa realidade social. Na crítica construída pude me ver dentro de uma visão ideológica montada para não dar certo. Vivemos boa parte do tempo uma farsa, que nos transforma em criaturas mecanizadas, vazias, sem direção, dentro de uma sociedade assustadora.

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