Carta ao grande amor

Dia de sentir, hoje deixo um trecho do romance (não publicado) “Bruxa”:

Meu amor, como sinto sua falta, embora sequer saiba falta de que eu sinta, pois você nunca esteve presente, nem em carne e osso, nem em telefonemas, sequer em cartas. No entanto, não consigo me livrar da tua presença, o tempo todo comigo e tão forte, que me impede todos os passos que me afastem dos teus braços, como se deles eu já não me tivesse separado há quase um ano. Como sinto a sua falta de sempre, a falta de “todos os dias da sua presença” e, ainda assim, te sinto aqui, sinto teu hálito quente ao meu lado na cama, teus braços fortes ao meu redor, teu corpo grandioso, de pé, perto de mim. Não há um segundo sequer em que eu não te perceba, nem nos meus sonhos, nem na noite escura. Beijo o edredon de flores que te cobriu algumas noites, deito no lado da cama em que você dormiu. Tudo o que há de humano para ser feito eu fiz, voei no astral para te abandonar, mergulhei nas minhas profundezas pra te arrancar de mim. Renasceste mais forte e quase me convenço de que te devo muito, te devo minha própria vida por outra encarnação mal resolvida em que te magoei ou te matei de amor, acumulando esse carma que me persegue nesta jornada. Meu amor, tento te deixar todos os dias, tento dizer a última palavra sobre nós e te dar meu último pensamento, mas ainda respiro e desconfio que enquanto isso ainda for, não sairás de mim. Debaixo d’água, no meu chuveiro, fecho os olhos e te lembro ali, espremido naquele espaço tão pequeno pra você e novamente te sinto: teus pelos, teu calor, tua saliva e a minha, teu gozo e o meu, tudo misturado num redemoinho de emoções tão intensas, que me encontro, ao final, sentada no box, como uma boneca de trapo, as lágrimas misturando-se à água quente do chuveiro. Sempre fui descrente desse desespero em que hoje vivo, dessa dor aguda, cortante, que me traz aos olhos as lágrimas de que sempre fugi. Sinto a tua falta, como se tudo o que eu sou hoje fosse apenas esse órgão, esse único órgão de sentir falta de ti. Sinto sua falta sempre que encontro outros homens, tentei beijar outras bocas, mas eram – sempre! – a tua, e, no fim das contas, me faz mal frustrar tanto a expectativa do teu gosto. “Gosto nenhum” é melhor que outro gosto sem ser o teu. Mas demorei a saber disso e só soube porque tenho minhas necessidades de mulher, você sabe que sou fogosa, então tento – preciso tentar! – renascer dessas cinzas escuras que me tornei, desse tempo nublado, dessa sombra que hoje carrega o meu nome, pois sou apenas a sombra da que fui quando “fui” contigo. Minha abstinência desse vício poderoso de ti tem várias fases e, em algumas, meu tempo e espaço se confundem, tenho visões, sinto cheiros, duvido que me tenhas amado realmente, não sei o que fui, sinto-me a última das criaturas, apenas uma diversão que usaste por algum tempo e que é tão fácil de ser descartada que nem um telefonema te trai alguma saudade. Nessas horas, sofro tanto, pensando que eu não signifiquei nada para ti, que parece que me arrancaram o fígado, as entranhas, as tripas e puseram para dourar numa farofa nada light de mim. Vazia de meus miúdos, sobrou apenas uma carcaça gelada, fria, que anda, respira e trabalha, simplesmente porque é assim que a vida é. Logo eu que sempre protestei contra o teu conformismo… Minha filha ficou muito doente em maio passado, pensei que fosse perdê-la, por um segundo toquei a dor que você sentiu quando perdeu seu filho e então voltei a orar por você, a te fazer carinhos na noite e a pedir a Deus que te abrace, se é que Ele pode te amar mais do que eu, o que eu realmente duvido. Com a doença da minha filha fui ao fundo do poço, submergi na angústia e na dor, arranquei a parte que faltava de mim e descobri que você tinha razão quando disse que somos parecidos. Eu não concordava muito até então, mas é um fato. Sou forte, forte como você. Quando penso que vou cair, que afundei e não volto mais à superfície, subitamente – sem saber como, sem ter a menor idéia do que me move nessas horas – me levanto, me ergo e respiro com a sofreguidão de um quase afogado. Durante todo o tempo da doença da minha filha, fiz tudo o que era preciso. Firme, determinada, imperturbável. Vencemos. Voltei. Sobrevivi e agora vou morrer da tua ausência, o que de alguma forma me conforta. É bom se saber morrível e, neste caso, matável. Não quero ser um zumbi ou uma vampira eternamente condenada à vida. Uma vida sem você. Nas noites mais dolorosas, me pego pensando no último e-mail que te enviei, um ridículo substrato da minha dor, disfarçado de amizade, de carinho, quando, por baixo daquelas palavras singelas e estudadas, eu gritava o meu sofrimento, rezando para que elas encontrassem em ti, surpreendentemente, uma sensibilidade que jamais toquei. Não porque você não a tenha – eu consigo vê-la por sob a sua fortaleza, assim como só você é capaz de ver a minha fragilidade -, mas sim porque a teme e enterrou-a tão bem em algum lugar que esqueceu aonde foi. Não quer contato com ela e mata tudo o que pode te fazer desenterrá-la, porque junto dela estão as dores mais intensas da sua história e não se pode escolher sentir esta ou aquela emoção: ou se sente tudo, ou não se sente nada. Você fez a última opção. Agora te trago, então, a boa nova: morre-se. Sentindo ou não sentindo, todos nós vamos morrer. Não nego a minha natureza – a poesia -: morro sentindo. Morro sofrendo, morro chorando, morro gritando de saudades, morro por saber quão raro foi esse encontro que desprezaste e quão chula é a ordinária vida comum, a manutenção do patrimônio, a vida dos deveres sem direitos claros. Morro, mas morro tendo aberto os braços para o amor, tendo-o recebido e dito “sim”. Nenhum bem material, nenhum valor financeiro, nada, absolutamente nada, me seria suficiente nesta vida e agora nesta morte, que não um amor como esse: absoluto, divino e… fatal… Mas não se assuste, morre a alma, todavia o corpo continua, cumprindo o tempo a ele destinado, desabitado como depois da tua partida. Minh’alma sofrida só agora parte, tendo vagado, antes, pelas tuas noites no litoral, tendo presenciado a dança regalada das futilidades em que te enredas todos os dias, para esquecer do que realmente importa. Eu te amo e sei quem és. Ao menos nisso hei de surpreender-te. O tempo todo pensavas que eu não te conhecia, que se te conhecesse, de fato, jamais te amaria. No entanto, agora sou eu quem te digo, como me disseste no aeroporto: “Eu menti pra você.” Sempre soube quem você era. Sempre soube que toda a doçura, a compreensão e aceitação, eram a capa de um homem possessivo, obsessivo, quase rude e de poucas sutilezas, bravo, genioso, temperamental, indomável, às vezes intragável. Eu sempre soube. E eu te amo. Se me tivesses recebido, se me tivesses aceitado, verias como o verdadeiro amor desarma e traz paz, como ser amado aquieta as turbulências e faz transbordar de mel o pote da violência… Eu te amo. Não se esqueça. Neste mundo não me parece que apareça quem dê conta de mim. Se não foste tu, meu centurião gorilla, quem haveria de ser? Sou mulher poderosa de outras eras, feiticeira. Por tua causa abri mão de todas as magias, deixando apenas ao teu coração a decisão de me amar. Rejeitaste a minha oferta legitimamente. Nenhuma influência lancei sobre ti. E porque te amo, abro mão de tê-lo. Sejas tu a eleger a tua felicidade. Hoje, minh’alma se retira para sempre de ti. E morre em paz. Selada foi a promessa, cumprido o destino, queimado o carma. Adeus, meu amor…

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