A Terrorista (bad day for travel)

Destino: Aeroporto Santos Dumont. Cinco horas da tarde. Já não era a hora ideal para se sair de casa e atravessar o centro da cidade do Rio de Janeiro, como eu precisava fazer pra viajar. Mas tudo bem. Há dias e dias. Dias em que tudo dá certo e dias em que você percebe que deveria ter ficado na cama. Eu devia ter notado. Devia ter lido os sinais. Devia ter desconfiado que esse era um dos dias em que eu faria melhor chafurdando em macios lençóis floridos, de preferência sem me mexer muito. Mas nunca consegui prever esses momentos em que a lei de murphy vai começar a agir na minha vida… Pra começar, mala pronta, roupa de viagem separada (aquele vestido preto, curto mas elegante), a empregada dispara, a voz aguda e contundente: Xiiih! A meia desfiou!!! Como assim a meia desfiou?!! Será que ela sabia o que estava dizendo? Será que se lembrava de que pedi para comprar uma meia novinha essa manhã? Como é que a meia desfiou??? Será que a criatura tinha amor à vida? Saí cedo, deixei dinheiro, pedi que ela fosse às Lojas Americanas ali perto e me trouxesse uma meia preta. Quando chego em casa, duas da tarde, passo a mão na roupa, me visto e ela vem com “a meia desfiou?” Como assim? Essa é a meia nova? Não. Cadê a nova? Não tinha.Tava em falta. Por que você não me avisou? Eu estava no centro da cidade, podia comprar lá, tem um monte de lojas…-Ah, você tava em aula, depois no trabalho, não quis incomodar…Não quis incomodar? Como assim não quis incomodar? Me incomoda pra tudo e logo hoje não quis me incomodar? Enfim, estava sem meia e aquela saia, somada à minha idade, não pedia, EXIGIA uma meia! Minha assistente se afastou, prevendo a chegada dos meus temporais. Tirei o vestido. Foi o primeiro sinal. Calça jeans, blusa comum, perdido o tesão das roupas provocantes, lá vou eu para o aeroporto. Chego ao ponto de táxi com alguma pressa: Táxi? O motorista acenou positivamente e naquele exato instante eu devia ter me perguntado, por que motivo ele estava empurrando o carro na fila do ponto quando eu cheguei. Na pressa, não perguntei, mas acabei descobrindo. Depois que o carro pegava, ele não podia morrer. Se morresse, morria mesmo, de fato e de direito. Assim, o motorista, com jeito de Jackie Chan, entrava aqui, furava dali, fechava um ônibus acolá, tipo “não boto o pé no freio nem que a vaca tussa”. Alguém já assistiu “Velocidade Máxima”, aquele filme com a Sandra Bullock e o Keanu Reeves, em que eles não podiam frear o ônibus nem reduzir a velocidade, senão a bomba explodia? Pois é. Imaginem Velocidade Máxima sem ar condicionado e terão uma idéia do meu trajeto até o aeroporto. Por alguns momentos, achei que não ia chegar, mas cheguei. Só tive tempo de ver Jackie pegando outro passageiro incauto e começando a empurrar o carro mais uma vez. Entro no saguão do Santos Dumont aliviada. A temperatura deliciosa me atinge em cheio. Tenho tempo para um café antes da decolagem. Por desencargo de consciência, dou uma olhada no painel eletrônico de embarques: VÔO 6796 – CANCELADO. Surtei. Sempre voei de TAM. Era a primeira vez que usava outra companhia. Taí. Olha o prejuízo! Café esquecido, quarenta minutos de tensão no balcão da empresa, à espera do meu destino. Porém, essa que pensei seria a pior parte, acabou sendo a melhor. Logo me encaixaram num voo da TAM, que sairia mais cedo do que o meu. Desisti de despachar a bagagem, pois já estava em cima da hora e o tamanho da minha mala, embora não fosse insignificante, ainda era tolerável no compartimento de babagem do avião. Tudo daria certo, enfim. Cartão de embarque na mão, cruzo o saguão correndo, na direção da escada rolante. Entro no setor de embarque, vejo o Arlindo Cruz e, tendo esbarrado no samba, acreditei, naquele momento, que a sorte voltava a me sorrir. Foi quando passei no detector de metais. Apito 1. Apito 2. Apito 3. Revista. Lá estou eu, no meio do salão de embarque, braço aberto, perna aberta, brincando de Cristo Redentor, enquanto alguém insistentemente me chama para o voo que só não partiu ainda por minha causa. Revista de lá, revista de cá, o problema era o metal no salto da minha sandália. Sandália de ir pro samba e samba não combina com guarda, nem com detector de metais. Samba é da paz. Onde estaria mesmo o Arlindo Cruz? Revista terminada. Tudo ok. Foi quando o José, tipo 5 x 5 armário, encontrou “um objeto suspeito com dentes” na minha mala. A senhora pode abrir?Eu abri, né? Acha cadeado, abre cadeado, roupa pra lá, roupa pra cá e nada do tal objeto suspeito. Eu dizia pro José: Mexe aí, José! Anda logo! E ele, impassível, aquela cara de pedra, sem emoção: Senhora, é um objeto dentado…Ele não tocava na minha mala, eu não encontrava o objeto e a esteira continuava rolando e jogando outras malas em cima de mim… Gritei: Pára essa esteira aí, José! Assim não dá! De repente, lembrei do cinto na bolsa externa da mala. “Dentado” uma ova!!!, pensei. Banguelo. Era ele. Tudo resolvido. Saio literalmente correndo pelo salão, me jogo dentro do avião, não sem antes passar pelo corredor batendo a mala em todo mundo, um sorriso amarelo de cachorro culpado. Me acomodo no único lugar possível, entre um executivo e a versão masculina da bela adormecida, que roncava sem cerimônia. Me sinto exausta, tensa, espremida e nem ouso pensar que o meu azar acabou. Recuso o serviço de bordo, rejeito a ideia de um cochilo, certa de que não posso relaxar até que este dia se acabe. Rezo para que esse avião pelo menos não exploda. Isso seria o pior. Já vejo até a cara do José, no scanner de bagagem: Bem que eu desconfiei que aquela dona era terrorista!

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