Eleições (a vitória de raviole)

Almoço normal em dia de trabalho, entro no velho Debret de guerra, tentando focar nas proteínas e sufocar o vício dos carboidratos. Depois das 14h, o movimento já diminuiu e geralmente vislumbro, ainda na fila de pesagem, as mesas do fundo, à procura de um lugar vazio.Minha amiga concentrara-se em algumas folhas, coalhada, um pouco de pão árabe e um solitário quibe, agora com os minutos contados. Eu preferira a kafta, uma colher de tabule, duas micro cenouras e uma quase invisível lasca de beterraba, entre algumas folhas verdes. Carboidrato do dia: uma colher de arroz com legumes, que deram uma cor amarelo esmaecida ao grão em geral pálido. 285 e 295 gramas. Pronto. Praticamente empatadas no emprate. Foi na hora de passar no corredor para alcançar as mesas do fundo que o incidente aconteceu. A frase foi clara, a ponto de, pela primeira vez, eu ter desejado muito ser surda naquele momento: “Aí liguei pra velhinha, cara, a de 47 anos, mas até que ela é ajeitada…” Senti um calor subindo pela espinha e chegando às bochechas. Será por que sou pitta na medicina indiana? Será a menopausa? Ou se trata, simplesmente, de EBMV (emputecimento com babaquice de macho velho)? Sim, porque os “gostosões” tinham mais de cinquenta e estavam caindo aos pedaços pra se acharem no direito de menosprezar e chamar de velhinha uma mulher praticamente… da minha idade!! Mesmo já sendo chamada de tia e senhora por aí, mesmo com a perda do saudoso “moça” habitual, nunca tinha sofrido impacto daquela monta e me vi repentinamente desnorteada, desorientada no meio do restaurante. Devo, então, ter virado para o lado errado, pois, de súbito, me vi de frente ao buffet de massas, o reinado sem lei do carboidrato. Novo impacto. Senti o mundo girar. Velha, perdida, fitava o reino mágico de raviólis, lasanhas e canelones, num fantástico espetáculo de cheiros e cores, que tornavam absurdo ter que escolher apenas um. Sim, porque a partir de um certo ponto da vida, todo mundo tem que se preocupar em eleger apenas um carboidrato e de preferência, apenas no almoço. Se você pensa que é difícil eleger esporadicamente o governo de um país, não menospreze a dificuldade da eleição do carboidrato. Se a primeira é difícil, porque todas as opções são ruins, com a segunda ocorre justamente o oposto, pelo menos para uma italiana massuda como eu, é difícil escolher entre um raviole de peras ao molho gorgonzola e um torteloni verde, com nozes e molho pesto. Mamma mia! Sem contar que só dá pra botar uma unidade do eleito no prato, no máximo duas, se forem bem pequenas… A eleição do carboidrato é diária e você engole com prazer divino e meio desatinado o candidato que mais lhe apeteceu escolher. E que experiência o momento em que ele te governa totalmente! Você deseja que nunca acabe… As outras eleições, em contrapartida, te fazem engolir à força no mínimo quatro anos do menos pior figurante do cardápio, em geral amargo, azedo e como vemos por aí, muitas vezes com a validade vencida. O menu, longe da variedade do buffet de massas, há tempos não varia, sempre ladrões e canalhas que só trocam o molho e os adereços. Enfim, eu estava arrependida de ter elegido o arroz cor de burro quando foge, diante daquele carrossel encantado de opções. Velhinha, desprezada até por barrigudos de cinquenta com cara de figo seco, nada me consolaria mais naquele momento do que um bom e familiar raviole.Va bene! Se ainda fossem magros e elegantes os dois idiotas… Fico sempre muito impressionada com gente light, mais evoluída. Sinto uma inofensiva inveja daquele povo esguio e esvoaçante pra quem comer é só um mal necessário, um acidente de percurso, que torna fácil trocar um bom prato de lasanha por duas azeitonas, se descobrirem que ambos têm o mesmo valor nutritivo. Comer – algo ou alguém – tem para mim um significado sublime e essencial. É uma espécie de êxtase, uma experiência de Deus, que deve ser pensada e preparada com cuidado, com a solenidade que o momento exige. De posse de duas unidades dos ravioles mais lindos do buffet, separados num pratinho, voltei à fila de pesagem. Minha amiga, que não entendera nada, olhava pra mim, aguardando-me para finalmente começar a comer. Passei rápido pelo corredor, sim, a velhinha. Afinal, quando a revolta com a guerra dos sexos acaba num prato de raviole, há que se reconhecer o sucesso do inimigo. Eles haviam vencido. Eu era velhinha sim, velhinha e gordinha. Mas também era ajeitada! E ia ter que eleger um monte de porcaria em outubro e engoli-la a seco por anos amargos e sem fim, mas pelo menos elegera o raviole e enquanto ele se dissolvesse na minha boca, ah, eu seria feliz! Votaria, sem pestanejar em raviole para governador do meu Estado. Mas a política não é tão linda quanto as massas, ainda que tudo sempre acabe em pizza!

(Image by Bernadette Wurzinger from Pixabay)

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